“A única saída é coletiva. Enquanto agirmos sem pensar em todos, os problemas continuarão crescendo”.

Eu estava no segundo ano da escola, e professora nos organizou em grupos para uma tarefa: recortar de revistas palavras que tivessem a letra n no meio da palavra, como  por exemplo, enquanto. 

Na minha equipe haviam mais  2 crianças, que resolveram brincar durante o trabalho e pintaram, fizeram bolas de papel, avião de papel. 

De nada adiantou eu reclamar e acabei fazendo sozinha  o trabalho – e na entrega do mesmo contei para a professora. 

Os colegas foram repreendidos, tiveram que fazer outro trabalho em casa e ficaram bravos comigo. Fui chamada de dedo-duro, traíra par toda a turma, e no dia seguinte, as mães dos que levaram bronca ainda foram lá na  escola reclamar da minha falta de espírito de equipe.

Apesar do constrangimento, mantive minha posição. Eu não entendia nada, mas estava cumprindo a ética da minha família. 

Meus pais nunca tiveram vergonha de defender o que acreditam – mesmo que trouxesse consequências indesejadas, como perder um trabalho ou frustrar um amigo.

 Eles sempre nos encorajaram a comprar brigas pelo que achamos certo, a enfrentar injustiças e não ter medo de discordar do grupo. É uma lição simples: integridade é o que fazemos quando ninguém está olhando; ética é como escolhemos agir diante do mundo inteiro.

Hoje, como mãe, percebo como deve ter sido difícil nos educar assim. Nossa sociedade não costuma estimular quem age movido pela ética de valores básicos como honestidade, respeito, justiça, tolerância e solidariedade. 

A esperteza ”de enrolar alguém  para se dar bem “, o “jeitinho” pra flexibilizar uma regra em benefício próprio, a “camaradagem” que torna uns cúmplices dos erros dos outros, o “todo mundo faz mesmo” que é desculpa para reproduzir crimes, o “sempre foi assim” usado para justificar preconceitos e tiranias – tudo isso pode ser muito sedutor, pois uma vida sem ter que se responsabilizar, sem se esforçar  pelo bem coletivo, cumprindo apenas as regras que são convenientes… deve ser mesmo bem mais fácil.

A questão é que esse buraco em que nos metemos não tem saída que não seja em grupo. E não há solução  possível em grupo sem um compromisso coletivo de agir de forma ética, priorizando o bem comum antes dos interesses individuais.

 A pandemiahttps://www.uol.com.br/ecoa/ultimas-noticias/2020/03/17/coronavirus-atitudes-para-pensar-no-coletivo-em-tempos-de-pandemia.htm ainda vai se estender por meses se não  seguirmos, todos, as normas para evitar o contágio, ainda que seja muito difícil. 

A crise política, econômica e moral do Brasil seguirá ladeira  abaixo enquanto elegermos representantes incompetentes e mal-intencionados. 

Se justiça social não se tornar  uma prioridade nacional, nossa desigualdade continuará nos condenando ao atraso, à miséria e ao desperdício de potencial. 

E ainda tem os buracos do clima, do racismo, do lixo soterrando terra e mar, da opressão contra a mulher e tantos, tantos outros.

Problemas sem dono, que são de todo mundo – então, só com todo mundo poderão ser resolvidos.

Tem sido difícil manter a esperança. Justamente quando mais precisamos agir coletivamente, estamos divididos em trincheiras opostas, sobrevivendo à base do “cada um por si”. 

Mas então me lembro da insistência dos meus pais. E penso que o maior legado que posso deixar para o meu filho é o mesmo que eu recebi: valores para viver.

 Para isso só há uma maneira – seguir vivendo, tentando ser exemplo; tentando manter a coragem de lutar, tentando fazer a minha parte, ainda que os outros não façam a deles, como  há mais de 30 anos atrás.

 Lições  como as desta edição me ajudam a não desanimar. Elas me ajudam a continuar lutando!

Carta de Roberta

Amei esse texto. Tem tudo a ver comigo. Fiz algumas mudanças e compartilho.

Compartilhe essa postagem

Compartilhar no facebook
Compartilhar no google
Compartilhar no twitter
Compartilhar no linkedin
Compartilhar no pinterest
Compartilhar no email

2